A Culpa é do Zoto

Português

Antes de mais nada, um pedido

de desculpas ao Zoto

Ninguém sabe ao certo quando o Zoto apareceu. Alguns dizem que ele

sempre esteve por aí, camuflado entre os outros. Há quem jure que foi ele

quem soprou o “sim” na hora errada, apertou o botão indevido, enviou o

e-mail com cópia pra quem não devia.

Outros afirmam que o Zoto nem existe — o que, convenhamos, é

conveniente. Afinal, quem melhor para levar a culpa de tudo do que

alguém que nem está presente para se defender?

O fato é que desde que o mundo é mundo, as coisas vêm dando errado. E,

conforme os séculos passam, a culpa foi se aperfeiçoando. Já não se culpa

mais o acaso, o destino, Deus, ou o livre-arbítrio. Não. Hoje se culpa o

Zoto.

O ônibus atrasou? Zoto.

A impressora travou? Zoto.

Seu ex voltou com a ex que você odiava? Zoto.

O governo? Zoto.

O povo? Zoto.

Você? Não. Você jamais. A culpa é, e sempre será, do Zoto.

Zoto virou substantivo, adjetivo e conjunção adversativa:

— Eu ia conseguir, mas aí o Zoto apareceu...

Zoto é o bode expiatório, o agente do caos passivo, o anti-herói dos dias

úteis. Ele não fala muito. Na verdade, quase nunca fala. O que ele faria, se

ninguém o escuta? Sua presença é sutil, mas SUFICIENTE para provocar

tragédias com a leveza de uma brisa errada.

Uma vez perguntaram ao Zoto, num raro momento de sinceridade

coletiva:

— Zoto, por que você fez isso?

E ele respondeu:

— Eu só existo porque vocês precisam.

Silêncio. Ninguém quis escutar. Era mais fácil gritar:

“OLHA LÁ, O ZOTO DE NOVO!”

E assim seguimos, coletivamente jogando em suas costas o que nos escapa

pelas mãos. O Zoto, coitado, carrega nossos erros com a resignação de

quem já nasceu culpado. Se o universo tivesse um canto pra empurrar

tudo o que ninguém quer assumir, seria o apartamento do Zoto.

Este livro, portanto, é uma tentativa — talvez tardia — de contar a

história desse personagem que representa todos os que nunca foram

ouvidos, mas sempre foram responsabilizados.

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