A Peregrinação Digital
Meu nome é Ifasola. Sou um Babalorixá, um pai de santo. Meu ofício, há muitos anos, é
cuidar da alma das pessoas, orientar seus caminhos com a sabedoria ancestral de Ifá. Eu
sou um guardião de tradições, um sacerdote de uma fé que atravessou o oceano nos
porões de navios negreiros e fincou raízes profundas nesta terra chamada Brasil.
Mas, nos últimos tempos, uma angústia nova começou a apertar meu peito. Uma angústia
que não vinha dos problemas de sempre – as dores do amor, a falta de dinheiro, as doenças
do corpo. Era algo diferente, mais silencioso, mais sutil. Eu via, e ainda vejo, nossos jovens
se perdendo. Não nas ruas, não nas drogas, como antigamente se temia. Eles estão se
perdendo dentro de suas próprias casas, sentados em seus quartos, com os olhos fixos em
uma pequena tela que brilha com uma luz fria e hipnótica.
Vejo filhos que não olham mais nos olhos dos pais. Vejo netos que não pedem mais a
bênção dos avós. Vejo uma geração inteira que conhece mais sobre a vida de
influenciadores digitais que nunca viram do que sobre a história de seus próprios
ancestrais. Eles estão em uma peregrinação, sim, mas uma peregrinação digital que os leva
para cada vez mais longe de casa, para cada vez mais longe de si mesmos.
