As duas faces do câncer

Português

Com dezessete anos, ingressei no curso superior de

Enfermagem e, em poucos meses, descobri uma grande paixão:

cuidar! Conciliava o trabalho como manicure com os estágios e as

aulas, mesmo que isso fosse cansativo e, às vezes, sem o

reconhecimento. Quando achei que estava pronta para sair da casa

dos meus pais e enfrentar o mundo percebi que eles eram o que eu

mais precisava perto de mim. O bom filho a casa torna? Contudo, os

conflitos de gerações eram extremos e foi preciso seguir meu

próprio caminho, o que fez a nossa relação se fortalecer ainda mais.

Estudar sempre fez parte da minha vida. Quando surgiu a

oportunidade de fazer pós-graduação em Oncologia, mesmo com

todos os contratempos, realizei meu sonho. Aos vinte e sete anos me

casei, após um namoro de apenas seis meses. De um relacionamento

conturbado com muitas idas e vindas, gerei o grande amor da

minha vida: meu filho.

Quando, enfim, o hospital referência em Oncologia da

minha cidade começou a funcionar, e o sonho de que ali seria onde eu finalmente atuaria no setor de Enfermagem ganhou forma, o

câncer chegou e passei a ocupar o lugar de paciente. Enfrentei a

dificuldade em contar para a minha família ainda abalada com o

recente diagnóstico de leucemia do meu pai, que culminou no

tratamento ambulatorial, quimioterapias, cirurgia, fisioterapias e

radioterapias. Diminui a carga horária, mas não deixei de trabalhar

nenhum dia dos quase dois anos de tratamento. Cumpri a minha

promessa e caminhei por trinta e dois quilômetros até a cidade de

Santo Expedito. Com lágrimas nos olhos por quase todo o caminho,

agradeci a Deus por ser um milagre e exemplo de perseverança, fé,

garra e determinação.

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