E-book Afinação de Piano
A afinação de um piano é um processo que une precisão mecânica, física acústica e controle neuromuscular. Ao contrário de instrumentos mais simples, o piano moderno possui uma estrutura de ferro fundido que suporta uma tensão combinada de até 20 toneladas distribuída por cerca de 230 cordas, as quais são fixadas sob pressão no bloco de cravelhas (ou cepo).
O processo começa com o isolamento das cordas. A maioria das notas possui três cordas (tricórdios). O técnico utiliza uma fita de feltro ou cunhas de borracha para silenciar as cordas laterais de uma região central, geralmente entre Fá3 e Fá4, permitindo que apenas a corda central de cada nota vibre livres de interferências. Esta área é chamada de zona de partição.
A partir de uma referência absoluta — tradicionalmente o Lá4 a 440 Hz, transferido para o Lá3 a 220 Hz —, o afinador inicia a distribuição do erro matemático através do Temperamento Igual. Como os intervalos puros da natureza não se encaixam perfeitamente em uma oitava de 12 semitons, o afinador deve "esticar" as quartas e "encolher" as quintas de forma sutil. O parâmetro de controle para esses ajustes microtonais são os batimentos acústicos: oscilações físicas no volume causadas pela interferência de ondas com frequências muito próximas.
Uma dificuldade central no piano é a inarmonicidade. Devido à rigidez estrutural do fio de aço, os harmônicos superiores de uma corda soam ligeiramente mais agudos do que os múltiplos inteiros teóricos. Para compensar isso, o técnico realiza o alargamento de oitavas (stretch), afinando os graves mais baixos e os agudos mais altos de forma progressivamente divergente em relação à escala de laboratório.
Por fim, após estender o temperamento para as 88 notas, removem-se os feltros para afinar os uníssonos (as cordas remanescentes de cada tricórdio), eliminando qualquer micro-batimento. A estabilidade da afinação depende do assentamento da cravelha (setting the pin), técnica em que o afinador aplica golpes firmes na tecla
