Entre dois mundos: A Origem de Lucas
A Casa Antes da Voz
Antes das vozes, havia a casa.
Não a primeira.
Lucas nascera no Brasil, mas não chegou a conhecer o
país que lhe deu origem. Com apenas vinte e cinco dias de
vida, foi levado para Chicago, envolto em documentos,
braços estranhos e uma travessia que ele jamais poderia
lembrar — mas que, de algum modo, nunca deixou de
sentir.
De sua origem, não havia imagens. Apenas uma ausência
sem forma, um espaço vazio onde deveriam existir
primeiras memórias. Chicago foi seu primeiro mundo:
cidade de vento cortante, ruídos constantes e prédios
altos demais para quem ainda não sabia quem era.
Depois veio à casa definitiva.
Ou assim lhe disseram.
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Não era uma casa grande. Também não era pequena.
Tinha o tamanho exato do silêncio que se acumulava
dentro dela. As paredes guardavam mais do que quadros;
guardavam pausas longas demais, frases interrompidas,
passos contidos no corredor.
Lucas aprendera cedo que pertencimento nem sempre
nasce do sangue. Às vezes, nasce do cuidado — e às vezes,
da tentativa constante de manter tudo no lugar certo. Ele
crescera amado, mas envolto por uma delicadeza tensa,
como se algo precisasse ser protegido o tempo todo.
