Fechei os olhos na Ladeira
Numa noite qualquer em Marília, um homem fecha os olhos numa ladeira a oitenta quilômetros por hora. Ele acredita, com uma certeza absoluta e inabalável, que a Mão de Deus está segurando o volante.
Não está.
Fechei os Olhos na Ladeira é o relato de Mikael — bacharel em Direito, ex-catequista, professor eventual, estudioso da Cabala — e da jornada que o levou de uma banca de revista aos dezoito anos até uma clínica psiquiátrica a quinze quilômetros de casa. Entre esses dois pontos: sete anos de faculdade e maconha crescendo em paralelo, um emprego público perdido por causa de um caminhoneiro sem dormir, uma formatura com a família toda presente e um vazio do outro lado, uma traição que desfez três anos de disciplina numa única noite, e três semanas de sono fragmentado e certeza crescente de estar no centro de algo maior do que si mesmo.
O livro é narrado em dois tempos que se alternam. No primeiro, o delírio — contado em terceira pessoa, sem julgamento, de dentro. No segundo, a reflexão — em primeira pessoa, anos depois, com a distância que só a lucidez permite. A mesma história, duas vozes, uma única verdade: a doença não avisa. Não escolhe os fracos. Não escolhe os despreparados. Às vezes escolhe justamente quem está de pé.
Dentro da clínica, Mikael encontra Rafael — punk careca que matou um cara num acidente e acha que clínica é hotel — e Seu Roberto — enxadrista com alta médica mas sem para onde ir, que perde de propósito de vez em quando para não afastar o público. Aprende que perspectiva é tudo. Que a rotina cura o que os remédios sozinhos não curam. Que vinte minutos de silêncio com os pais numa sala com planta artificial podem dizer mais do que qualquer conversa planejada.
E aprende, no Natal do nono mês — o mesmo tempo de uma gestação —, que a raiva e a gratidão podem coexistir no mesmo peito sem que uma destrua a outra.
Este não é um livro sobre loucura. É um livro sobre o que acontece quando um sistema de crenças sincero encontra um cérebro que não
