Geraldo Zaniratti: memórias projetadas na tela de um livro
Mesmo um não aficcionado pelo cinema — como, de forma
discreta, e, muitas vezes, silenciosa o foi Geraldo Zaniratti — ao
ler este livro, certamente entenderá o sentido e o significado de
uma paixão por uma das linguagens da arte, a linguagem do
cinema. Tanta coisa para falar sobre essas duas histórias que se
confundem e se misturam: a de Geraldo Zaniratti e família e a do
cinema!
O entendimento revelado sobre o papel do cinema (“o
cinema 16 mm como espaço alternativo no campo educacional,
recreativo, social e cultural para as populações do interior), a
compreensão, ainda que empírica, da gravidade de momentos
políticos fundamentais do país (“O Estado Novo foi uma ditadura
muito feroz”), bem como a sensibilidade para o trato de questões
envolvendo pessoas e não máquinas (relato do caso do
funcionário que, segundo seu patrão, deveria mesmo doente ser
escalado para trabalhar fora do horário) dão a exata dimensão da
totalidade de ser humano que Zaniratti sintetiza.
Sem dúvida, são histórias imprevisíveis vividas por Geraldo
Zaniratti, no contexto que ele próprio às vezes resgata, que
constróem o que academicamente denominamos História.
No livro, ficção e realidade são revividas e explicam o que
muitas vezes a nossos olhos parece inexplicável, porque o
coração não sentiu. Ações aparentemente insignificantes
demonstram a beleza do nosso papel de seres históricos, ao
sentir, na pele, a importância de contribuir para a realização de
sonhos e desejos do outro. No caso de Geraldo, muitos sonhos
de conhecer e experimentar o cinema de perto, ainda que não ao
vivo e em cores.
Se, historicamente, a arte imita a vida, e,
circunstancialmente, a vida imita a arte, a vida de Geraldo e a arte
do cinema se entrecruzam e revelam-se construtoras da maior de
todas as artes: a arte de viver.
Por: Julia D. Petri
