Cicatrizes Invisíveis
Quando a noite finalmente caiu sobre a casa, nada mudou de imediato. O silêncio continuou ali, firme, como um móvel antigo que ninguém ousava mover. Mas, pela primeira vez em muito tempo, algo dentro deles começava a se deslocar — não o suficiente para ser visto, apenas o bastante para ser sentido, como um fio de poeira que dança no ar antes de tocar o chão.
Ele permaneceu na cozinha por longos minutos depois de terminar os pratos, observando a água escorrer pela pia como se pudesse levar embora tudo o que nunca foi dito. Sabia que não podia. Sabia que o silêncio não se desfazia com água, nem com tempo. Mas, naquele instante, percebeu que continuar calado também não o protegia de nada. Apenas o mantinha preso.
Ela, no quarto, soltou o lenço devagar, como quem finalmente admite que não pode segurar o que já se perdeu. O tecido caiu sobre a cama sem som, mas o gesto ecoou dentro dela como um estalo. Pela primeira vez, não desviou o olhar do vazio ao seu redor. Encarou-o. Reconheceu-o. E, de algum modo, isso a fez respirar um pouco mais fundo.
A casa, testemunha muda de tudo, parecia escutar. As paredes, acostumadas a guardar segredos, tremularam com a mudança quase imperceptível no ar. O retrato na sala continuava ali, com seus olhos apagados, mas agora parecia menos uma acusação e mais um lembrete: o silêncio tinha começado muito antes deles — e talvez terminasse ali, naquela noite, se tivessem coragem de permitir. E às vezes, admitir é o primeiro passo para voltar a viver. Livro impresso em Papel Branco, 75g/m² P&B, no tamanho 16x22cm com 78 páginas. Este produto é feito sob demandas - será produzido especialmente para você após a compra. Por isso, o prazo de entrega pode levar alguns dias. Essa abordagem reduz desperdícios e estoques excedentes, contribuindo para uma produção mais sustentável e alinhada com boas práticas de ESG.
