Ilhas dos amores
2. A Ilha dos Amores
Comecemos agora a segunda viagem, que nos vai dar a conhecer um outro imaginário.
Igualmente do século XVI, mas já de outro universo cultural e simbólico, é o episódio
conhecido pela Ilha dos Amores, retratado nos cantos IX e X de Os Lusíadas, de Luís de Camões.
A primeira edição da obra data de 1572, algumas décadas depois da cronologia proposta para
o painel do Inferno. Conjugando a matriz clássica com as novas visões dos descobrimentos, o
poeta incorpora na sua obra épica o amor pagão e os valores humanistas do Renascimento.
A Ilha dos Amores é imaginada como uma recompensa com que Vénus, a deusa do
amor, protetora dos portugueses, decide gratificar os navegadores pelos seus sofrimentos, feitos
e valentia, exemplificados na descoberta do caminho marítimo para a Índia. A chegada à “ínsula
divina” culmina o processo de mitificação dos heróis – e simbolicamente do povo português –
construído ao longo do poema. Na preparação meticulosa do encontro amoroso, Vénus conta
com o auxílio do seu filho Cupido e de belas Ninfas que saberão satisfazer o desejo carnal dos
navegadores, acolhendo-os, com sensualidade e erotismo, na “formosa ilha alegre e deleitosa”.
A ilha, teatro da relação erótica, é idealizada como um paraíso sensorial, um arquétipo
locus amoenus, pleno de vegetação fresca, viçosa e frondosa, frutos, animais, águas correntes,
lago e paisagens campestres. Neste cenário natural maravilhoso, esperam os marinheiros as
belas ninfas, de vestes coloridas, fingindo-se descontraídas e incautas, tocando cítaras, harpas e
flautas, desnudando eroticamente o corpo com o vento ou saindo nuas do banho: “Acende-se o
desejo, que se cava / nas alvas carnes, súbito mostradas”.
Camões celebra Eros, o amor pagão, recompensando os seus heróis com “doces
manjares, perfumes raros, frutos suculentos, suaves melodias, atos amorosos – todos os sentidos
são saciados, atinge-se a plenitude e alegria do corpo”
