LIVRO A ORIGEM DOS DEMÔNIOS

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O estudo da demonologia no horizonte judaico-cristão revela um fascinante processo de evolução conceitual, filológica e teológica ao longo dos séculos. Na mentalidade contemporânea, consolidada por séculos de tradição cultural e dogmática ocidental, os termos "demônio", "diabo" e "anjo caído" são frequentemente utilizados como sinônimos perfeitos, designando uma mesma categoria de seres espirituais rebelados contra o Criador. No entanto, uma análise arqueológica dos textos sagrados e das literaturas intertestamentárias demonstra que essa equivalência nem sempre existiu.

No Judaísmo do Segundo Templo e em obras fundamentais como o Livro de Enoque (1 Enoque), vigia uma clara e rigorosa distinção ontológica entre os Sentinelas — seres celestiais de alta hierarquia que pecaram ao descer à Terra — e os demônios, compreendidos estritamente como os espíritos descorporificados e errantes dos gigantes (os Nefilins). Paralelamente, as Escrituras Hebraicas e a posterior tradição rabínica desenvolveram categorias independentes, como os Shedim, entidades criadas no crepúsculo do sexto dia da Criação, destituídas de corpo físico devido à proximidade do Shabat, sem qualquer relação causal com uma rebelião angelical cósmica.

O presente estudo propõe-se a mapear o percurso histórico e hermenêutico que culminou na dissolução dessas fronteiras conceituais e na subsequente fusão dessas identidades pela teologia cristã. Investigar-se-á como a transição da exegese literal enoquiana para a leitura alegórica patrística, liderada por Santo Agostinho, pavimentou o caminho para a centralização da demonologia em uma única narrativa: a da soberba cósmica primordial. Por fim, analisar-se-á como a Escolástica medieval e a definição dogmática do IV Concílio de Latrão (1215) institucionalizaram essa fusão, moldando de forma indelével a mística, a hagiografia, a prática exorcística e a iconografia do Ocidente católico até a contemporaneidade.

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