Livro Contos de vida de minha Mãe
Capítulo 162
A cegueira da minha esposa e o impacto psicológico que essa doença causou em minha vida.
Quando a cegueira entrou em nossa história, ela não chegou sozinha. Veio acompanhada do medo, da incerteza e de um silêncio que, muitas vezes, gritava mais alto do que qualquer palavra. Ver a pessoa que amo perder aos poucos a visão foi como assistir o mundo desacelerar, escurecer e exigir de mim uma força que eu nem sabia que existia.
A doença não afetou apenas os olhos dela. Atingiu minha mente, meu emocional e minha forma de enxergar a vida. Houve dias em que me senti impotente, cansado e profundamente triste. O peso psicológico de precisar ser forte o tempo todo, de esconder o choro para não aumentar a dor dela, foi um dos maiores desafios da minha vida.
Aprendi que amar, nesses momentos, é mais do que cuidar do corpo; é sustentar a esperança quando tudo parece perdido. É segurar a mão no escuro, mesmo quando também não se enxerga o caminho. Muitas noites foram marcadas por pensamentos confusos, ansiedade e perguntas sem respostas. “Por que com ela?” “Por que conosco?” — perguntas que só Deus conhecia o sentido.
Com o tempo, compreendi que a cegueira física não apagou a luz que existe nela. Pelo contrário, revelou em mim uma nova forma de ver: com o coração. Passei a enxergar detalhes antes ignorados, a valorizar pequenos gestos e a entender que a verdadeira visão não está nos olhos, mas na fé.
