O percurso do narrador

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O percurso do narrador envolve a fuga da linguagem dominante através do que Deleuze e Guattari chamaram de "literatura menor" ou ao que Pasolini chamou de "língua de poesia" (ao contrário da "língua de prosa"). Assim, essa concepção remete à atualização da narrativa clássica pelo cinema, ou seja, através dos "filmes de autor" do pós-guerra se pode ver a mutação da prática estética a partir de uma perspectiva menos vinculada a escrita e a literatura do que as imagens sonoras e visuais.

Por outro lado, um dos temas centrais do ensaio sobre “O narrador”, de Walter Benjamin, é o da pobreza da experiência. Esse diagnóstico se baseia na observação de que os homens voltaram da guerra extenuados com a experiência das trincheiras, e da fome e da carestia na Alemanha do entreguerras.

Para homem moderno o diagnóstico é ainda mais pessimista: ele volta para casa à noite extenuado por uma mixórdia de eventos de todos os tipos, minúsculos ou grandiosos. Tanto faz. Nenhum deles é capaz de ser experenciável, ou seja, transmissível.

O que é um diagnóstico aparentemente pessimista, aos olhos de Agamben ou Deleuze tudo isso muda de sinal. Para um, a mudez traumática é o retorno à infância; para o outro, o fracasso do reconhecimento atento nos leva à lembrança-pura, a um acesso direto ao tempo.

As consequências dessa visão levam a uma guinada ética tão profunda quanto a estética realizada a partir da forma-cinema. Assim, os temas do trauma, da infância e da história são revistos de uma maneira não imaginável pelos pioneiros da análise do inconsciente como Freud, Bergson ou Proust.

Este mini-curso, retirado das discussões do clube de leitura Cine-Poesia, se baseia na análise ética e estética d'O narrador a partir de seu caminho entre as descobertas do início do século XX e suas transformações no pós-guerra, isto é, fornece o instrumental teórico básico para se compreender sem pieguismo ou simplificações imagem que perfaz, hoje, o que podemos chamar de heroísmo.

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