SÍNDROME DO TRANSTORNO RELIGIOSO
Este livro nasce da prática clínica. Ao longo dos anos de atendimento em psicoterapia, um padrão se repetiu diante de mim com uma frequência que não podia mais ser tratada como coincidência: pessoas que haviam deixado, sido afastadas ou expulsas de comunidades religiosas de alto controle chegavam ao consultório carregando um conjunto muito específico de sintomas. Ansiedade que não cedia à razão. Culpa sem crime. Pesadelos com julgamento final. Pânico diante de palavras que, para qualquer outra pessoa, seriam neutras.
Durante muito tempo, a psicologia tratou esse sofrimento como uma variação genérica de ansiedade ou depressão. Mas quem já sentou diante de alguém nesse processo sabe: há algo mais específico ali. Há uma arquitetura própria de dor, com fases, gatilhos e mecanismos neurológicos identificáveis. A isso chamamos, neste livro, de Síndrome do Transtorno Religioso — STR.
É importante que eu seja claro desde a primeira página: este não é um livro contra a fé, contra a igreja ou contra Deus. Também não é um livro que defende o ateísmo ou que tenta convencer alguém a permanecer ou a sair de qualquer comunidade. Este é um livro sobre o ser humano que ficou ferido no processo — seja porque saiu, seja porque foi excluído, seja porque continua dentro mas já não reconhece a própria voz interior em meio ao medo.
Meu compromisso, como psicoterapeuta e como autor, é com a saúde mental e com a dignidade de quem sofre. Se você está lendo isto porque reconhece em si mesmo os sintomas que serão descritos aqui, quero que saiba, antes de qualquer definição clínica: o que você sente tem nome, tem explicação e, principalmente, tem tratamento. Você não está quebrado. Você está em processo.
